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quinta-feira, 10 de junho de 2010




... Como um cisco que encontra um olho aberto. Não importa se eram olhos sonhadores ou determinados, se olhavam o luar, ou o amanhecer, é um cisco. Pode parecer acaso, um cisco no vento, mas talvez não seja. A cabeça abaixa em direção ao peito ao mesmo tempo em que a mão move-se rapidamente, no reflexo de apertar o olho invadido. Instintivo. Maquinal. E, sem a menor cerimônia, ele passeia pelo globo aflito como se o pertencesse, enquanto vozes familiares martelam a cabeça com conselhos. “- Não esfrega!”, “- Lave com água...”. – Nem sempre tão perto, nem sempre tão perto – murmura distraidamente o viajante, com a mão ainda no olho, sem saber exatamente o que fazer, exceto enxugar as lágrimas do olho “- ferido”, “- magoado”, “- irritado” – repetem as vozes em ecos distantes... Mas não importa. O viajante não mais presta atenção na paisagem à sua volta. Nas árvores que balançam seus galhos floridos, nos raios alaranjados de sol que aquecem a alma, nas folhas que se movem em pequenos redemoinhos ou pousam no cabelo, atiçados pelo vento suave que corre e distribui o aroma com o qual seu nariz se deleitava antes do inconveniente cisco, no canto dos pássaros ou qualquer outro detalhe pitoresco. A única coisa que prende a sua atenção é justamente o que mais o incomoda.

A mão finalmente abandona o rosto, revelando um olho inchado e vermelho, que pisca continuamente, na esperança de se livrar do intruso, o olho irmão apenas observa o caminho para compensar o outro que arde e espera a “mágoa, ferida ou irritação” passar, enquanto isso, no momento, não há odor ou sensação ou som ou visão que captem sua atenção por tempo suficiente. Livrar-se do que o incomoda. “Será essa uma das funções da alma?” – pergunta-se mentalmente o viajante, lembrando de como ouve falar dos cachorros que dormem em cima de pregos. Será que de fato há uma alma para ordenar prioridades no que seria num saco muito complexo de carne e sangue?

Mas os braços já relaxaram ao longo do corpo. Já é um começo. O cisco provavelmente já se fora, mas sua marca ficará ali por tempo demais, de acordo com o olho desafortunado. Mas por um efêmero momento, comparado a estrada. E será pior se esfregar, coçar ou apertar. Em breve a máquina humana, a mesma que rapidamente uniu a concha da mão ao olho atingido, se livrará da dor, da lembrança e o olho voltará a brilhar como seu par, e o que ele vir, combinado com seu gêmeo, fará o viajante sorrir, virar a cabeça para contemplar a paisagem, se deleitar com a luz do sol que despeja seu calor tênue sobre ele, sorrir para o clima, os sons e as cores. Para os sapatos que protegem seus pés, sua sustentação. As meias, que lhe dão conforto. A blusa que aquece e protege seu peito. Roupas. Ajustadas, aconchegantes, acolhedoras. A consciência de que cada pequena coisa naquela estrada a faz única, por mais que um cisco ou outro o façam perder a atenção de vez em quando... Assim como a poeira de seus passos podem acabar fazendo um cisco entrar em algum outro olho desavisado...

Mais adiante o viajante irá rir da ironia de coisas tão pequenas ou insignificantes tomarem sequer uma parcela de seu tempo... Seu sorriso vai brilhar à luz da lua, e ele seguirá, mesmo sabendo que outro pode chegar na próxima brisa...

Ka.



[Surto leve pós leitura intensa. =P Sr. S.K., não me processe.]

Um comentário:

  1. Que texto fantástico!
    Ele se encaixa perfeitamente em qualquer situação chata e que nos tira do sério, mesmo que por pouco tempo.
    Li e reconheci o meu cisco. Aquele que tenho que eliminar dolorosamente para que o mundo se torne límpido e colorido, mesmo que solitário.
    Todos temos ciscos em nossas vidas e eles se renovam, mudam ou renascem porque somos passionais demais para eliminá-los de vez.
    Parabéns, é simplesmente demais.
    Da dindinha que te ama.

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